quinta-feira, 22 de abril de 2010

Menina II


Menina II

Menina nasceu, coitada!
Para o pai, que desgraça!
Fosse um filho homem...

Para a avó, tristeza:
Coitadinho de João! Só tem uma filhinha e assim mesmo é mulher!
Maria, esta sim, teve sorte: Sete cabra macho, um atrás do outro.

E a menina entristeceu.
Se homem fosse...
se tivesse nascido homem...
Talvez não passasse fome.
Não tivesse que puxar água no cacimbão,
fazendo tantos calos na mão.
Talvez tivesse pão
no café.
Pudesse brincar de bila...
pega-pega...
soltar arraia...
jogar bola...
Peteca...
Tomar banho no riacho...
Rolar no chão como os outros meninos.
Teria uma baladeira...
uma espingarda...
uma peixeira...
um cachorro valente.
E não uma simples boneca de pano feita por uma velhinha cega que passava o dia sentada na beira da estrada pedindo esmola perto da ponte do Salgadinho. E que, às vezes, me dava um dinheirinho. E que meu pai queria para uma bicada e mamãe brigava alegando que se fosse juntando todo o dinheiro que davam pra menina, desde que ela nasceu, teria dinheiro para comprar uma casa de sobrado.
Então, dividia-se a moeda entre a bicada e o pão.
E eu ficava sem nenhum tostão.

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