sexta-feira, 30 de abril de 2010

Príncipe Muleta

Queria tanto um príncipe
encontrar...
Ah!...Um príncipe!!!
Vivia a sonhar!...
Entre tantos homens comuns,
Como vou identificá-lo?
Estará disfarçado de quê?
Terei que adivinhar.

Até que um dia...
Encontrei.
É ele.
Ele é
o meu príncipe,
não tem por onde.
É o homem da minha vida.
Namoramos.
Casamos.

Procurei
nele o príncipe.
Achei
apenas o homem
que um dia virou fera.
Lobisomem.
Corri.
Quase morri.
Escapei.
Fedendo.
Arranhada,
machucada,
ferida,
magoada.

A culpa era dele.
Que um príncipe era
e numa fera se tornou.


Não era mais o meu amor.
Porém...
Viver sem ele...
é ser perneta,
maneta.
Aleijada
sem muleta.
Uma tristeza infinita.
Culpa dele que não
era um príncipe.
Nem casada nem viúva nem solteira.
SÓ.
Solidão...
depressão.
Auto-estima
baixa...
baixa...
Baixíssima...
Mas tão baixa
que tudo se anula
e nada
via.
Sem fantasia, nem alegria.
Culpa do príncipe
que ele não era.

E assim, a vida se passa sem se viver:
Do pesadelo à letargia.
Da paralisia à indiferença.
Da falta de crença ao realismo sem esperança.
Falta de confiança.
Ausência de auto-confiança.

Os anos seguem.
Os cabelos embranquecem
e nada se esquece.


Há um reencontro.
Ele não é príncipe.
Nem ela princesa.
Não se visualiza mais
nem fera nem ferida.
Deve haver em ambos
Uma certa amargura
Por algo interrompido,
não concluído,
talvez...

Fazendo uma retrospectiva
percebi que
capenguei
desnecessariamente
durante muito tempo.
Fui princesa solitária
a procura de um príncipe que não existia.
Colega, quase irmã do Príncipe Ribamar da Beira Fresca
que esperava a princesa "Takuku Nakara".

Agora, que capengo por força dos anos,
vejo que ninguém precisa
fazer ninguém de muletas
para ser feliz.
Nem infeliz.
Nem ser princesa.
Muito menos esperar um príncipe.
Nem o Felizes Para Sempre.
Amém.
No final.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Gatos

Gatos
Gatinhos
Gatões.
Arranhões.
Mordinhas.
Lambidinhas.
Dormidinha.
Comidinha.
Sardinha.
Ração.
Água.
Terra.
Ar.
Fogo, não.
Almofada.
Tapete.
Colo.
Carinho.
Telhado.
Miado.
Disputa.
Luta.
Briga.
MIAUUUU!!!
HUIMMMMMM!
E rola em rolo pelo telhado
Deixando-o quebrado.
E o dono acordado a gritar:
Pxii, gaaaato!!!...

Gatos II

Gatos bichanos felinos meninos
pulguentos sarnentos bambinos.
velozes sagazes sangrentos
caninos leões leopardos.
Pardos escuros negros
no muro.
Brancos mancos
Amarelos caramelos marmelos
Siamês sem raça de rua
Do mato gato qualquer.
De onça filhote magote.
Felino de moça sozinha,
menino mimado.
Leitinho no pires
Ração da melhor.
Brinquedo cama lençol.

E o menino de rua
na solidão continua.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Abelha abençoada


Zune
zumbindo
zuuummmmmmmmmmm
vai voando
a abelinha
a procura da flor
que dá mel de primeira
feito cana caiana no canavial.
Voando
vai
zummmmmmmmmmmmmmmmmm
zumbindo
nos "zuvidos"
arapuá,
italiana,
africana,
enxu,
de canudo...
saburá, cera, mel.
Mamãe abelha vira rainha.
Abelha-rainha moribunda vai morrer.
Pela abelha mensageira,
manda a filha avisar.
E agora?
O trabalho está
de vento em poupa.
Nada pode parar.
Mas a rainha vai morrer...
Todo o cortiço...
toda a colmeia tem
que parar o serviço.
Pára! pára! Pára!
Para tudo!
Fica apenas
um batalhão
de abelhas- soldado
para a colméia vigiar.
E quando outro voltar,
o que ficou,
substituído será.
Desde que,
antes de morrer
a abelha-rainha,
todos possam a benção tomar.
E assim se fez.
Uma
a
uma
a benção
foram tomar
e a abelha rainha
a abençoar
antes de se finar:
"Abençoada seja,
filha minha,
com toda a sua prole
e seu trabalho.
Que seu mel seja
mais que alimento,
seja alento
e conforto.
Que seja remédio o mel,
a cera e o saburá."
E assim ficou, por todos os séculos dos séculos. Amém!

domingo, 25 de abril de 2010

Aranha


Ara aranha arranha arara ara aranha ara ara ara
Ara ara urde urde urdedura
da aranha não urde nem dura.
Varredura.
Teia feia
que enfeita a casa
abandonada mocegada
assombrada
do sobrado
do sótão e do porão.
A teia na telha do telhado
enfeia e enfeitiça
a feiticeira e sua casa empoeirada.
Ara muito
e pouco ou nada
serve a teia.
Pois a veia
não tem sangue.
Sugado foi pela maldição
da mãe doente.
A aranha aracnideo
não atendeu
ao chamado urgente
da enferma mãe-aranha,
pois muita teia tinha para tecer.
Tecendo ficou até a mãe morrer
amaldiçoando a filha
e seu tecido
que enfraquecido ficou.
E morrendo, a mãe assim falou:
"Aranha, filha minha, muito trabalharás
e pouco colhereis,
pois não vieste me visitar
na hora da minha morte.
Amém.
Centenas de filhotes nascerão,
porém poucos sobreviverão.
Bastará uma espanada
ou uma vassourada
para seu castelo ruir,
já que provaste ser
uma filha ruim.
E assim ficou:
urde urde urde
une une que une
desune une
e a teia frágil tece
diariamente
eternamente
pela praga da mãe moribunda.

Abelha 1

Abelha
mEL
EL
mENSAGEIRO.
Ligeiro.
Necta.
cera.
saburá.
Própoles.
Flor.amor.fecundação.
Estação: primavera.
Trabalho incessante:Voar...
buscar
pelo aroma,
a flor
de sabor...
com pólen
e pistilo.
Mamilo
de mel.
Anel
de união
entre a sabedoria
e a ação.

Se uma tão pequenina abelha
é capaz de produzir
um tão saboroso mel,
o ser humano
que tem muito mais neurônios,
com ação e inteligência...
por que produz tanto fel?

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Vazio

Os vazios da vida da gente
não são vazios.
São hiatos.
Reticências...
Como etecétera e tal.
De repente,
Um vazio se dá na nossa porta,
na nossa estrada...
no nosso coração,
na nossa mente.
Então, paralisamos diante do vazio
como diante de um abismo.
Quedamos imobilizados.
Porém, temos que agir.
E agora?
Buscamos no nosso baú de sabedoria
algo para preenchê-lo.
E surpresa!
Eis a criação.
A criatividade.
A revolução.
A solução para todo e qualquer vazio.
Como um pensamento novo e bom.
Um poema gostoso de se fazer.
Uma esperança que se renova.
Uma dor que se alivia.
Um espelho que lhe sorrir.
Um raio de sol sobre um jardim.
Uma flor ao se abrir.
Um aceno ao partir.
Um pensamento em você
Ainda que você não exista.

Nada

Dou de cara com o nada.
Nada nada.
Vazio total.
Mas tão vazio e tão total
que nada é.
Nem buraco negro,
nem escuridão,
nem branco gelo.
Nem neve.
Um vazio tão vazio
e tão esvaziado
que parece mais
um vácuo desmaiado.
Ou um abismo perfurado,
sem fundo.
Ou um céu sem limite,
sem nuvem,
sem estrela...
sem cor, cheiro ou sabor.
Vazio insípido, inodoro, incolor e insolúvel.
Compacto.
Duro e duradouro.
Um vazio que dói e incomoda.
Um vazio fora de moda que pretendo jogar fora.
Agora!
Neste momento jogo este vazio ao vento enquanto você me lê
preenchendo tudo,
colorindo tudo,
iluminando tudo,
animando a alma
que se entusiasma
com a vida que aí está.
E eu,
pronta para amar.
E para o vazio, não mais olhar.
E vê, tão somente, teu olhar
Ao meu mundo iluminar.

Menina II


Menina II

Menina nasceu, coitada!
Para o pai, que desgraça!
Fosse um filho homem...

Para a avó, tristeza:
Coitadinho de João! Só tem uma filhinha e assim mesmo é mulher!
Maria, esta sim, teve sorte: Sete cabra macho, um atrás do outro.

E a menina entristeceu.
Se homem fosse...
se tivesse nascido homem...
Talvez não passasse fome.
Não tivesse que puxar água no cacimbão,
fazendo tantos calos na mão.
Talvez tivesse pão
no café.
Pudesse brincar de bila...
pega-pega...
soltar arraia...
jogar bola...
Peteca...
Tomar banho no riacho...
Rolar no chão como os outros meninos.
Teria uma baladeira...
uma espingarda...
uma peixeira...
um cachorro valente.
E não uma simples boneca de pano feita por uma velhinha cega que passava o dia sentada na beira da estrada pedindo esmola perto da ponte do Salgadinho. E que, às vezes, me dava um dinheirinho. E que meu pai queria para uma bicada e mamãe brigava alegando que se fosse juntando todo o dinheiro que davam pra menina, desde que ela nasceu, teria dinheiro para comprar uma casa de sobrado.
Então, dividia-se a moeda entre a bicada e o pão.
E eu ficava sem nenhum tostão.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Menina I

Menina I

Vendia amendoim na praça,
nos bares, nas ruas, nas festas, na noite.
Adormecia na banco de cimento.
Acordava assustada com o sol na cara
e com o vômito do bêbado
caído ao seu lado.
Tinha pressa.
Frequentava a escola pela manhã.
Mais para dormir sossegada
do que para acordar para vida.
Em casa, o pai, sempre bêbado,
Achava pouco o dinheiro que levava.
"Ainda hei de achar um jeito de sair dessa vida."
Pensava a menina.

Menina morena cresceu.
Deixou de vender amendoim.
O pai, papudim, morreu.
Ela, da escola, se esqueceu.
Não sei como, engravidou.
Abortou...
Novamente engravidou.
Deixou nascer...Ou não conseguiu abortar.
Deu a criança para alguém criar.
Ou alguém adotou.
Já no amor...
De freguês a cliente...
Clientela de primeira:
Depufede.
Depuesta.
Verea...
Delega.
Doutor.

Na vida...
Tudo agora é diferente!
Comida farta e da boa.
Bebida e tira gosto.
Muito riso à toa.
Porém...
Sente dor, uma ardência...
Tem medo de pegar uma DST.
Apesar do preservativo.
Nem sempre ativo.
Preocupada repete:
"Ainda saio dessa vida."
Que vida, menina?!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Chegada

Cheguei cedo.
cheguei aqui.
Não sei pra quê.
Não sei por que.
Mas sei que aqui estou a esperar.
Por quem ? E por quê?
Tento entrar
em sintonia comigo mesma.
Sinto-me uma lesma
vivendo a esmo.
Não estou ansiosa.
Calmamente espero,
sabendo que vou me encontrar...
Em qualquer lugar...
A qualquer momento
Encontrar-me-ei inteira,
completa.
Viva.
Ainda que o invólucro
que reveste minha alma
já não tenha a mesma
dinâmica de antanho.
Porém, a vontade de servir
há de me seguir
por onde quer que eu vá.
Quando não puder ajudar,
ajudarei em pensamento.
Desejando o melhor
para o seu bem-estar.
Farei uma oração
para tranquilizar seu coração
e encher de sabedoria
a sua mente.