sábado, 29 de maio de 2010

Maio malho maior

Abril maio mal chegou, findou.
E antes do fim, levou minha mãe.
Um jardim de rosas, não interessa mais.
Fita a nesga azul do céu e só.
Olha pela janela como quem vê o invisível.
Ouve atenta a voz inaudível dos anjos.
Que importa uma rosa do quintal?
Um raio de sol que entra pela janela mostrando a poeira do ar, embora puro, indica o transporte de luz por onde há de subir aos céus.
Tudo pára.
A fraca respiração já não existe.
O corpo hirto.
A seringa com água na boca não é sugada.
Tudo agora é nada.
O fim chegou.
Temos que tomar as providências para o enterro.
Chama a funerária.
O corpo é conduzido ao hospital para ser examinado.
Atestado de óbito.
Cartório.
Cemitério.
Túmulo.
Celebração.
Lágrimas.
Gramado.
Buraco retangular.
Caixão que desce por roldanas.
Uma prece.
A noite desce.
A cova é coberta por cimento e revestido por um tapete de grama.
Tudo foi consumado.

Em 14 de maio fez um ano.
No mesmo dia, a morte passou por aqui e levou a vizinha.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Evolução dos Deuses


Os deuses evoluem conforme a mentalidade de cada povo, de cada geração, de cada ser. Se "penso, logo existo" é exato no seu pensar, o pensamento é que é real, matéria prima dos deuses, pois materializa o desejar. Portanto, os deuses são a sombra espiritual do corpo material. Pois, quando primitivo, primitivo também eram os deuses, naturais como: o Deus Sol, Lua, Raio, Trovão. Saindo da divindade, vieram para seus representantes na terra: Rei Sol, Rainha das Águas, Senhora dos Raios, Santa Bárbara, e outras e outros.

Da energia pura viemos, certamente, para ela, haveremos de voltar. Somente ao corpo material, físico, caberá a sentença bíblica: "Tu és pó e ao pó voltarás."

Tendo a vida saido das águas, tal as águas-vivas, corpo etéreo, transparentes já tivemos. O transportes de outras energias e outras matérias contribuíram para a transformação do ser de então, e assim, outros corpos tivemos, com outras perspectivas, outras formas de ver a vida e de pensar. Então, posso deduzir que o discordar de hoje pode já ter sido o meu próprio pensar como único e verdadeiro.

Povos como Caldeus olharam o céu e aos astros adoraram. Acreditaram que o destino lá estava, escrito nas estrelas, destino traçado pelos astros, etc. Em tudo há verdades, dependendo do contexto, basta que para isso possamos abrir as portas da alma, da mente, do coração. Então, Tudo é relativo. Somente a energia vital, aquela que anima, portanto a alma é perene, absoluta, porém em constante evolução.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sob o Viaduto


Em Brasília eu vi sob o viaduto uma menina franzina magricela raquítica magrela morena pálida amarela branquela banguela assanhada despenteada suja descalça com uma pequena bacia na mão. Pedia esmola? Não. Puxava a blusa rasgada pelo pescoço para mostrar o seio - que não tinha - a um homem de bigodão que vinha no seu carrão preto. Meto o grito do alto e o carro que parava, correu. E a menina me olha com um estilete na mão ameaçando subir a rampa do viaduto de grama verde. Ando rapidamente para o ponto do ônibus e o coletivo que vem vindo pára e eu subo e sento junto a um voluntário da pátria veterano de guerra que pede ajuda para sobreviver e um passageiro revoltado nervoso xinga o octogenário e diz: Vá pedir ajuda aos donos da Pátria que por enquanto, nós, trabalhadores, somos apenas escravos sem esperança de alforria. Vá pedir aposentadoria ao presidente, ou no congresso ou na câmara dos deputados. Vá pra ponte que caiu mas não explore a minha paciência nem peça o dinheiro que eu não tenho. Venho de uma entrevista que pelo visto não vou ficar. A vaga é para o sobrinho do delegado de uma cidadezinha do interior que telefonou na hora em que eu estava sendo entrevistado. E eu, palhaço aqui, aluguei palitó e gravata, sapato mandei engraxar, caprichei no visu, estudei o linguajar, tomei suco de maracujá, me olhei no espelho... E eu pergunto: Pra quê?