sábado, 5 de junho de 2010

O Mapa da Morte



Ouvi dizer que a morte tem um mapa e uma lista infindável que é quase infinita e que nunca chega ao fim, ficando sempre no meio dos seres vivos: homens, mulheres, crianças, animais e plantas.

Quando a rasga-mortalha, mãe-da-lua passa, à noite, rasgando a mortalha que leva no bico... é morte certa. Morte morrida. Minha mãe dizia que para se livrar do mau agouro, ao ouvir o grito da rasga-mortalha, devia-se gritar mais alto que ela: Viva os noivos, Senhor! Vá comer carne no açougue!
Ou quando se sonha com dentes caindo, cariados ou extraídos...morte de um parente próximo. Se os dentes forem os superiores, homens. Se forem os inferiores, mulheres. Se, porém, forem os da frente, pai, mãe ou filhos. Ou quando se sonha comendo carne, indica morte de amigos ou conhecidos.
Mas a morte tem seu mapa. Ela passa muito tempo sem passar e de repente, sai catando, levando...
Ora, no quarteirão em que morei durante trinta e três anos, ela deve ter passado quatro vezes, levando octogenários ou centenários. Tudo muito natural. Fui morar em outro quarteirão, porém na mesma rua. Pois, não é que ela agora resolver atuar. Num período de dois anos, ela passou no antigo quarteirão em que morávamos e levou dez pessoas, entre homens e mulheres, crianças, adultos e idosos. Quando parou de levar os de lá, passou aqui e levou mamãe. Com uma semana, levou um vizinho que tinha acabado de sair de lá, e sete dias depois, outra vizinha que também tinha saido do trecho. Acho que a morte falou: Se mudaram mas eu os encontro.

O mapa da morte deve ser objeto de estudo, pois é não-físico, pode ser metafísico ou psicológico.
Curioso foi que quando fez um ano da morte de minha mãe... a morte levou a vizinha, do mesmo terreno, o mesmo número da casa. Ataque fulminante. Três semanas depois, leva Eulália, ataque fulminante. As duas últimas trabalhavam na mesma escola, uma como funcionária e a outra como voluntária de um grupo de teatro da associação de pais e mestres e comunidade. E nesse interim, havia levado um estudante com leucemia.

A morte ronda... Ora, tão próxima... da casa... da escola...

Domingo passado fiz cinquenta e cinco anos. Outro dia eu sonhei com a data do meu aniversário. Os seis viravam de cabeça se transformando em noves e os cincos se somavam em dez. Acordei assustada. Que transformação acontecerá nesta data anunciada? 9/9/10!

Estou tentando me lembrar com sonhei hoje. Acho que estava esquecida das coisas. Sentada numa cadeira de balanço. Depois, andando na multidão... Falando sozinha... O que será?

Vizinho ímpar, vizinho par. Par...par. ímpar... par...da direita, esquerda. Foram-se. Foram levados. Pra onde? A maioria está sepultada no cemitério Anjo da Guarda, onde está a minha mãe.

2 comentários:

  1. Diz a crendice popular que não se deve contar os mortos e nem citá-los, pois a morte se zanga e inclui o nome de quem conta em sua lista.

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