Em Brasília eu vi sob o viaduto uma menina franzina magricela raquítica magrela morena pálida amarela branquela banguela assanhada despenteada suja descalça com uma pequena bacia na mão. Pedia esmola? Não. Puxava a blusa rasgada pelo pescoço para mostrar o seio - que não tinha - a um homem de bigodão que vinha no seu carrão preto. Meto o grito do alto e o carro que parava, correu. E a menina me olha com um estilete na mão ameaçando subir a rampa do viaduto de grama verde. Ando rapidamente para o ponto do ônibus e o coletivo que vem vindo pára e eu subo e sento junto a um voluntário da pátria veterano de guerra que pede ajuda para sobreviver e um passageiro revoltado nervoso xinga o octogenário e diz: Vá pedir ajuda aos donos da Pátria que por enquanto, nós, trabalhadores, somos apenas escravos sem esperança de alforria. Vá pedir aposentadoria ao presidente, ou no congresso ou na câmara dos deputados. Vá pra ponte que caiu mas não explore a minha paciência nem peça o dinheiro que eu não tenho. Venho de uma entrevista que pelo visto não vou ficar. A vaga é para o sobrinho do delegado de uma cidadezinha do interior que telefonou na hora em que eu estava sendo entrevistado. E eu, palhaço aqui, aluguei palitó e gravata, sapato mandei engraxar, caprichei no visu, estudei o linguajar, tomei suco de maracujá, me olhei no espelho... E eu pergunto: Pra quê?
As mazelas do mundo está no mundo.
ResponderExcluirjá comentei.
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